20.2.06

Dolce Vita, nono andar, sala 4


Sete horas. Já estava escuro. Dia quente, abafado. O prédio preto de tão sujo. Pura fuligem, cuspida todos os dias pelos escapamentos de milhares de veículos raivosos que roncavam pela avenida. Edifício Dolce Vita. Treme-treme decadente freqüentado por putas e travestis da região. Saulo de pé, na porta. Aguardava o homem de vozeirão, com quem marcara encontro por telefone. Saulo, que era de Câncer, quarenta e tantos. Grisalho. E que também era crente. Bastante crente. Desses que fazem da Bíblia a bússola da vida. Saulo, casado, classe-média, pai de um moço. Quando ensejava a desistência, um táxi parou. Desceu um elemento abrutalhado, enorme, vestindo jeans e jaqueta de couro.
- Saulo? É o senhor?
- Isso. Cidão?
O brutamonte respondeu com um sim de cabeça e, pigarreando, perguntou com a voz grave, rouca, quase incompreensível:
- O apartamento? Do senhor?
- Não. Aluguei. Só pra ocasião. Vamos entrar.
A saleta de entrada ostentava um chão de ladrilhos vermelhos trincados. Lâmpada fraca, dependurada por fios desencapados. O porteiro de camisa desbotada azul fedia ardido a suor seco. Braços cruzados sobre a mesa, cabeça encovada no meio. Cochilava um sono mal dormido, sono de pernilongos rondando, ávidos pelo banquete. Às vezes despertava, abanava o braço na vã tentativa de expulsar o zum-zum-zum, ouvia um pouco do mal sintonizado jogo de uma dessas estações AM e dormia de novo.
Saulo e Cidão. Caminharam até o corredor do elevador. Esperavam. Saulo, Saulo... Logo ele, que era bom. Cidão encarava-o de soslaio. Saulo, de olhos titubeantes, namorava a rua. E agora? Desisto? Mas como? Esse homem já veio até aqui! Se eu sair ele avança em mim. Se corro ele me alcança. O estrondo do chegar do elevador, verdadeira jaula metálica enferrujada, interrompeu seu pensar. De dentro, saiu um travesti de peruca loira, barba por fazer. Fumava. Sorriso da decadência orgulhoso na cara. Batom vermelho, gritante. Dentes tortos. Os da frente separados por um buraco escuro, por onde roçava a língua. Levantou a blusa, botou a mão nas tetas postiças e assimétricas, empinando-as, e perguntou para Saulo, insinuando-se:
- E aí? Vai?
Saulo desviou. Entrou no elevador, seguido por Cidão. A porta era das antigas, trança de ferro fechada manualmente. Cidão enfiou a mão pesada por entre a grade e, violento, fechou-a. Para Saulo, era bom o sentir-se ascendendo. Aproximava-o dos céus. E a ascensão lenta os levaria até o nono andar. Olhavam pro chão. Cabisbaixos. Segundo andar. Terceiro. Só se ouvia o tec-tec de velharia da gaiola subindo. A mudez de ambos beirava o insuportável. Quinto. Cidão, preocupado em garantir seu bem-estar e completamente alheio àquela presença desconhecida, incômoda, perguntou sem interesse:
- Por que não só você? Sozinho?
Saulo tirou uma bíblia surrada do bolso do paletó. Segurou-a com força, cheio de fé nas letras gastas, apagadas. Respondeu comovido, com voz trêmula de quase choro:
- Não posso! As Escrituras! Não entende? O Livro condena! Preciso que faça isso por mim!
Sétimo. Oitavo. Um tranco e a jaula de ferro parou. Nono. Cauteloso, mãos de imensa leveza, Saulo forçou a grade. Ritualístico. Não queria destronar o silêncio que, tirano, abissal, imperava no estreito corredor repleto de penumbras. Caminharam. Saulo à frente, Cidão logo atrás. O eco dos pesados passos de Cidão, mentalmente repreendidos por Saulo. O cheiro de mofo. A claridade dúbia, sinuosa. No final, a sala 4. Tão disponível, tão só de Saulo. Tão toda perfeita para um plano secreto. De repente, a mão bruta de Cidão agarrou Saulo pelo braço, que olhou pra trás interrogativo. Cidão esclareceu, perguntando:
- Tem certeza?
A pergunta. Como era difícil transpô-la. Saulo, que já empunhava a chave da porta. A porta, que seria facilmente aberta. Mas a pergunta. A infame pergunta, para a qual Saulo não possuía chave alguma. A voz animalesca de Cidão transmudara-se na voz suave da esposa. Os olhos. Pareciam os olhos ternos, amantes dela. Olhos de apenas brilho, quando ele chegava em casa, respirava fundo o cheiro do feijão fresco sobre a mesa e sorria. Era ela, sua esposa perguntando se tinha certeza. E Saulo não tinha. Desisto? Vou até o fim? E respondeu, à meia voz:
- Sim. Vamos.
E foram. Caminharam. Sala 4. A chave, enfiada no orifício com vagar, agora girava, destrancava a porta. Calmamente. Mão na maçaneta, porta abrindo. Atônito, Saulo vislumbrava o recôndito secreto de sua obsessão. Carpete fino, escuro. Pouquíssimos móveis. Apenas uma cama e um criado-mudo. Janelas enormes. O incessante pisca-pisca dos luminosos de fora tingia o ambiente. Ora verde, ora lilás, ora vermelho. Entraram. Quando Cidão acendeu a luz, Saulo censurou-o:
- Não! No escuro! Só à luz dos luminosos.
Mergulhado em verde, Saulo tirou a carteira do bolso. Colocou-a sobre o criado. Deitou-se de bruços. Lilás. Pegou a Bíblia e apertou-a forte ao peito.
- Quando terminar, abra minha carteira. Está lá a quantia acertada.
- Certo.
Cidão aproximou-se. Na cabeça, Saulo sentiu a pressão dura, rígida.
- Pronto?
Luz vermelha. Tiro! Seco, varando furioso e quente seu pensamento. O som engolido pelo faminto turbilhão de buzinas e motor de avião. Cidão foi até a janela. Olhou pra baixo e cobiçou uma puta, que se oferecia com as coxas de fora. Pegou o dinheiro. Partiu. Só ficou Saulo. Saulo, que era crente. Que era bom. Feliz. Em casa, a esposa o esperava. O feijão esfriando na mesa.

19.2.06

Desentranhado


Depois de enfrentar a multidão que se acotovelava dentro do metrô, Carlos finalmente chegou à ruela de sobradinhos tortos onde morava. Apertou o passo. Não queria perder o Big Brother.
Maquinalmente, abriu o portãozinho enferrujado, que cortou o silêncio com um grunhido agudíssimo, lamuriante, dolorido. Pensou o mesmo pensamento de dias, semanas, meses, anos antes:
- Preciso arrumar o portão.
Entrou. Cruzou a saleta de paredes encardidas e emboloradas e chegou à cozinha. Abriu a geladeira. Vazia. Pegou um pacote de miojo, pôs água no fogo e encostou-se no armário, aguardando a fervura. Sobre a pia, um pedaço de papel alumínio abandonado, que usara em sua última marmita. Recolheu-o.
O papel levemente amassado refletia sua cara, distorcendo-a. Olhos desnivelados, nariz todo picotado, boca talhada ao meio. Olheiras ainda mais escuras e sombrias. Restos de macarrão seco com molho de tomate e carne moída misturavam-se à imagem aberrante. Jogou seu reflexo no lixo e terminou de preparar o macarrão. Embora estivesse muito acostumado ao sabor fabricado, dissimulou certa surpresa:
- Delicioso!
Devorou o jantar e esparramou-se no sofá. Ao ligar a TV, comoveu-se, possuído por uma felicidade abrupta:
- Que bom! Ainda não começou.
Olhou para seus pés descalços. Uma pequena ferida furunculosa no calcanhar prendeu sua atenção. Espremeu-a. Escorreu-lhe pela pele uma água espessa e amareliça.
- Estranho! Não doeu!
Espremeu um pouco mais. Surpreendeu-se ao notar que da ferida pendia um fiapo úmido. Puxou-o. Mais um. Outro. Novos fios foram se aglomerando e formando o que se assemelhava a um volumoso chumaço de algodão. A sensação era estranhíssima. À medida que Carlos desentranhava o chumaço, sentia de onde saía, como uma cócega por dentro. Começara pelo pé, depois perna, escalando o ventre, o tórax. Puxava com violência e fúria a matéria estranha que saía do seu âmago e que, agora, cobria os tacos do chão da sala como um tapete.
Quando a cócega terminou de percorrer o pescoço, Carlos sentiu uma forte fisgada na cabeça. Era o fim do chumaço. Havia algo na ponta, algo que não era de algodão. Qualquer coisa dura, rígida. O que antes era uma suave cócega tornou-se dor lancinante. A ponta dura foi descendo, qual lâmina afiada rasgando suas vísceras, e causando uivos de desespero. Quando chegou ao peito, Carlos parou. Pensou em desistir. Porém, àquela altura, sua curiosidade superaria até a força titânica dos gigantes. Continuou, contorcendo-se todo.
Respirou profundamente. Encheu o peito de coragem e, com força descomunal, puxou o corpúsculo num movimento brusco e preciso, evitando assim prolongar por muito mais tempo tamanho sofrimento. O objeto chegou ao calcanhar, porém não passava pelo estreito orifício da ferida. Teve de rasgar a pele. Estava suado, exausto. Sentia-se como uma mãe no pós-parto. Quando finalmente apanhou o objeto, não pôde conter um terrível grito, misto de espanto e alívio:
- Uma chapinha!
A chapinha metálica trazia impressos o número 84.689.563, um código de barras e três palavras que Carlos esforçava-se para ler, sem sucesso.
- Será inglês?
E pronunciava as sílabas como em português:
- Ma... de... in... bra... zil...
Irritado com tudo aquilo, juntou suas entranhas e amontoou-as no lixo junto com o papel alumínio. Sentou-se no sofá e pensou:
- Agora deixa eu ver meu Big Brother.

18.2.06

Sessão de Cinema


Um dia o Diabo ouviu rumores de que Deus havia deixado o Céu por alguns instantes. Resolveu subir para conferir com seus próprios olhos.
- É hoje! Se ele realmente estiver fora, vou aproveitar para tomar conta da sala de controle e governar o universo – pensou.
Quando ele abriu a porta, encontrou Deus sentado, aos prantos.
- O que foi, seu Deus? Posso fazer alguma coisa?
- Infelizmente não. O pior já aconteceu. Essas criaturas daninhas que criei não se corrigem! Devia ter deixado o planeta só para os bichos!
O Diabo, como pai de toda a maldade existente, retrucou:
- Não seja tão duro. Eles não são tão ruins assim. Tenho certeza de que em alguns milênios os homens estarão melhores.
Para convencer o Diabo, Deus começou a narrar todas a maldades cometidas pelos homens. Quando terminou, o Diabo disse:
- Ainda acho que o senhor está exagerando um pouco.
- Então você não acredita? Vou te mostrar uma coisa...
Levou o Diabo para a sala de projeção, onde estavam arquivados os acontecimentos do planeta Terra. Começou o filme.
Mostrou as guerras púnicas, de secessão, das Malvinas, do Paraguai, do Oriente Médio, dos sete anos, dos treze anos, dos trinta anos, dos cem anos.
Mostrou a história de Átila. As fogueiras da Idade Média. Os romanos soltando as feras sobre os homens. Napoleão. Hitler. A bomba atômica.
Quando terminou o filme, o Diabo, horrorizado, voltou para o inferno. Hoje em dia, antes de adormecer, o Diabo sempre junta suas enormes mãos vermelhas e reza:
- Por favor, Deus. Proteja-me de todas as maldades dos homens.

17.2.06

Amar sob tendas


Toda vez que Parangolé, o famigerado ventríloquo do circo, tentava sair à francesa, já vinha atrás o palhaço Jeca, atravessando o picadeiro e gritando:
- Espera aí que também vou!
- Está bem! Vá se trocar, dizia Parangolé.
Apressado, Jeca ajeitava as calças semi-arreadas rebolando um pouco, pra entrar melhor. Sujeito abobado o Jeca. Ruivo de botar fogo invejoso, tanto era a vermelhidão da cabeleira. Saía feliz da vida. Bem sabia que Parangolé andava aprontando suas reinações pela rua, traquinagens de rir sem-fim.
Naquele dia sucedeu que Parangolé precisava de ir ao banco. A fila estava que parecia cobra-de-veado depois de banquete. Jibóia comprida, esparramada, paradinha de tudo. Parangolé inquietando, enervando. Coça nariz daqui, bate pé de lá. E nada! Jeca logo percebeu que era coisa de minutos pro amigo começar a talentagem de falar de boca fechada. E foi mesmo. Ventri-berrou:
- Todo mundo de mão pra cima! Assalto!
Fuzuê dos diabos! Um tal de gente correndo de um lado pro outro, com braços erguidos. O guarda puto de raiva. Arma em punho e cara de violência, tudo pra pegar o bandido. Procurava o gatuno que nem cão farejador. Mas bandido mesmo que é bom, neneca! Depois do pandemônio, no caminho de volta pro circo, a gargalhada dos dois era tanta que mais um bocadinho de nada e Jeca me saía um belo de um borraceiro.
Mas taí uma palavrinha danada que a gente cá de baixo se habituou chamar destino, só que lá em cima o nome é outro: Providência. E foi bem isso que pegou Parangolé de jeito.
Naquela agitada noite de espetáculo, já tudo estava armado pro matreiro Parangolé entrar bem. Lua mais cheia que mar de peixe. Céu todo de brilhantura. Cheirinho de pipoca doce no ar. Burburinho de criançada feliz ao longe. E o circo inteiro cravejado de lampadinhas coloridas, piscantes. Que perigo, tanta pólvora de coração junta! Uma faísca – uma faisquinha apenas – e pronto! O pobre Parangolé estaria apaixonado, abestado por demais.
E eis que chega a dita faísca. Bem no número de Parangolé, enquanto o boneco Xiquito recitava um poema. Linda, de vestido branco rendado e olhos negros de flecha venenosa. Xiquito terminou a recitação, mas cadê que Parangolé continuava? Só ficava olhando pra moça, atracado na bobagem de amor. Com fins de ajudar o amigo, entra Jeca, já semi-fantasiado, tropeçando em Deus e o mundo e caindo de quatro no meio do picadeiro. Recomposto, cochichou no ouvido de Parangolé:
- A fala! Você tem que falar “Xiquito, deixe de manias de poetar sobre amor. Amar é coisa de gente desocupada!”... Vai, homem de Deus! Fala!
Parangolé, pintado todo de vermelho, fazia o coisa-ruim, cético, vilipendiando o amar. Xiquito era o poeta apaixonado, tentando convencer o diabo do contrário. Mas Parangolé, com olhar fixo na donzela, saiu pior que a encomenda. Disse tudo ao invés:
- Virgem Santa! Como é que pode tanta boniteza pra um alguém só? Amar, Xiquito! Eis aí a única certeza da alma! Amar sem rumo! Amar sem prumo! Simplesmente, amar!
Xiquito, fulo da vida, retrucou:
- Ei! Devagar com o andor, seu moço! O poeta aqui sou eu!
Enquanto o mundo à sua volta gargalhava, a mocinha recatada sorria um sorrisinho meigo de meia-boca, disfarçando, olhando pra baixo, coradinha nas bochechas. Findo o espetáculo, lá foram Xiquito e Parangolé, este tão todo rubor que sabe lá se era de avergonhado ou resto de tinta. De pernas trêmulas, afoitíssimo, Parangolé abordou a moça:
- Sabe que aquela trapalhada lá dentro foi culpa da senhorita? Digo, da belezura da senhorita...
Ao que Xiquito imediatamente interrompeu e disse com veemência:
- Vê lá, Parangolé, se isso é jeito de tratar uma donzela tão da formosa? Deixa isso comigo.
Xiquito tinha razão. Parangolé era homem galhofeiro, dado a patuscadas. Não conhecia os sutis melindres e labirintos da alma feminina. Mas Xiquito... Aquele, se não fosse boneco, já tinha botado de joelhos metade das donzelas da cidade.
- A senhorita me desculpe pela descompostura desse meu amigo tosco. Sou Xiquito. Não pude deixar de notar quão lindos são teus olhos. Ó donzela, trouxeste conforto e alívio a este coração de boneco, que, solitário e calado, sofre sem par neste mundo.
Estranha a reação da moça. Parecia que ia falar qualquer coisa. Mas o lindo rosto foi se enchendo de aflição. Olhou pra um, olhou pra outro. Virou as costas e foi sumindo junto com o apagar das luzes. Nem xingar xingou. De pé, fincado no chão que nem galho morto sem folha e banhado de luar, Parangolé olhava pro nada, com Xiquito na mão. Os dois queimando de febre da alma.
Dormiram sono ruim dos diachos, desejando não houvesse amanhã. Mas havia. Muitos amanhãs. Um pior que outro. A moça aparecia no circo cada vez mais encantadora. Só olhava. Parangolé e Xiquito chegavam de manso, puxando assunto. Nada. Ela tripudiava, quieta de tudo. Nunca dizia se gostava ou desgostava. Castigava forte com olhares de ternura. No dia de sofredura máxima, Parangolé agarrou-a pelo braço e descarregou o palavrório:
- Não faz mais isso, Dona! Fala qualquer coisa. Que não quer a gente. Ou até que odeia! Estou a ponto de fazer besteira da brava. Vem aqui no circo jantar amanhã, às oito? Vem? Só eu, você e Xiquito?
A moça se libertou com um safanão e correu atordoada. Naquela noite os amigos de Parangolé, liderados por Jeca, se juntaram e prometeram ajudar no jantar. Estavam preocupadíssimos. Por aqueles dias Parangolé era só casca. Mesma cara, mesmo corpo. Mas por dentro, a alegria fora minguando, minguando, até sumir de tudo. E Xiquito? Não se ouvia mais a poesia linda do boneco.
E todo mundo dormiu. Sumiu a lua, veio o sol, todo mundo acordou de novo. Horas imóveis aquelas, mais pra correnteza de riacho congelado. Parangolé olhava o relógio de minuto em minuto. À tardinha começou a arrumação do circo. Sete horas. Parangolé, já de banho tomado, cheiroso que só cheirando, penteava Xiquito. Separou pro boneco a roupa mais elegante de todas: um terninho cheio de finesses.
- E se ela não vier, Parango?
- Daí, Xiquito, a coisa vai desandar. A gente vai subir até a tábua dos trapezistas e se jogar. Dar cabo dessa vida ingrata.
- Pode parar! Você suba lá sozinho e me deixe cá embaixo. Posso até fazer torcida, mas pular junto? De jeito maneira!
- Vamos ver só se você não vem comigo...
O riacho do tempo descongelando preguiçoso. Goteira lenta de minutos. No relógio, oito horas. No picadeiro, Parangolé e Xiquito de um lado pro outro. Oito e dez. Oito e vinte. Oito e meia, e Parangolé começou a escalada da escadinha dos trapezistas. Degrau por degrau, indo ao encontro da indesejada das gentes. O chão amiudando. Xiquito, coitado, gritava:
- Me põe no chão, filho de uma égua manca! Tenho vertigem!
Pobre Parangolé. Mal imaginava quem vinha chegando do lado de fora. A moça era o deslumbre em pessoa. Um malabarista, vestido de listas azuis e fazendo diabruras com bolinhas, abriu o portão. De vestido florido discretamente decotado e perfume de primavera, ela caminhava em direção à tenda. Diversos homens de pernas-de-pau e tochas na mão dispostos em corredor. Cuspidores de fogo. Conforme ela passava, um mágico túnel de luz ia se formando sobre sua cabeça.
Do lado de dentro, Parangolé respirava fundo o resto de coragem necessária. Xiquito só tapava os olhos. Quando a donzela chegou à porta da tenda, Jeca, caracterizado de palhaço e vestido com estirpe, recebeu-a cheio de cavalheirismos e outros ismos. A moça tirou um bilhete da bolsa e entregou a Jeca. Este, muito surpreso e quase sem palavras, abriu a porta. Mas surpresa maior ainda foi ver Parangolé na pontinha, de joelhos flexionados, dando impulso ao pulo mortal. Jeca berrou:
- Não faz isso! A danadinha é muda! Por isso não falava com você! Está aqui o bilhete que não me deixa mentir. E a graça dela é Maria.
Muito tarde. Parecia que o joelho de Parangolé tinha mais pensamento que a cabeça. Os dois foram despencando numa velocidade sedenta de chão. Naquela altura, quem perguntasse a Jeca se o coração agüentava mais uma, ele diria que não. Mas tinha outra. Das boas. Um trapezista, escondidinho na escuridão da tábua de pulo oposta e muito do ciente das caraminholas que andavam pela cabeça de Parangolé, pulou ao mesmo tempo no trapézio. Capturou Parangolé pelo pé, a um tiquinho do chão. O homem voava e ria bobo, fitando Maria florida lá embaixo.
Passado o susto e já pousado no chão, Parangolé ajeitou a gola do paletó, caminhou até Maria e disse:
- Vamos jantar?
Conduziu-a até seu lugar na mesinha. Quando sentou, olhou bem aqueles olhos negros e falou:
- Então a senhorita é muda? Por que não disse antes?
Xiquito logo repreendeu o amigo:
- Larga a mão de burrice, homem! Como é que ela ia dizer alguma coisa?
Maria sorria, apaixonada que estava pelos dois.
Depois chegou Pierre, o mágico de tratos afrancesados, montado num elefante. Vestia fraque e gravatinha borboleta. Apeou, aprochegou-se e, num passe, puxou das mangas três cardápios.
- Monsieurs, Mademoiselle, le menu.
Ao fundo, trapezistas imersos na luz azul dos holofotes, cheios de estripulias, brincavam de arranhar o céu.
Meses depois, no matrimônio, o padre questionou Maria se queria esposar Parangolé. Este deu uma cutucada na moça. Ela abriu a boca, mas quem falou foi o noivo, ventriloquando:
- Sim.

16.2.06

Borboletas e mariposas

Houve um ano em que um cientista ganhou o prêmio Nobel de matemática por ter descoberto a fórmula que descrevia o vôo das borboletas. Ficou mundialmente conhecido. Certo dia, sentado no banco da praça de sua cidade, notou que um menino, em êxtase, olhava fixamente para uma borboleta que por ali voava.
- Por que você observava aquele inseto tão atentamente?
- Eu observava as cores. Havia um espectro, como um arco-íris. Isso significa que suas asas, embora muito pequenas, comportam todas as cores que existem em todo o universo. Eu agradeci a ela, por ter trazido aos meus olhos o universo inteiro, por um instante efêmero.
O cientista saiu triste, cabisbaixo. Não havia notado quaisquer cores. Pensava tratar-se de uma mariposa. E lá se foi um universo voando.

15.2.06

Nega Dita

Quando eu era menina, foi Nega Dita quem cuidou de mim. Mamãe morreu naquele dia de céu preto e tempestade, no meio do parto. Dizem que enquanto a gentarada piruetava de contentamento e a terra saciava sua sede de monstro agreste, papai corria doido pelo descampado, erguendo os braços e suplicando a Deus que lhe metesse um raio na fronte. Não era ruim o cabra, mas depois daquele dia a cabeça nunca mais voltou a funcionar direito. Primeiro tentou me matar, quando eu somava um ano e dias. Depois, quando amocinhei, ele usou meu corpo casto pra saciar seu desejo. Era natal. Requentei a buchada e deixei-a lá, sobre a mesa. As luzes piscavam bonito na árvore de natal. Verde; amarelo; azul; adormeci. Ele chegou encachaçado. Chamava Luzia, era o nome de mamãe. Agarrou-me, beijou meu cangote e, sorrindo um sorriso abestado, sussurrou com demência:
- Senti uma saudade dos diabos!
Nega Dita sempre me dizia que sou minha mãe cuspida. O homem, trêmulo de vontades, puxou-me pra cama, implorando:
- Vem, Luzia, vem me fazer teu homem mais uma vez.
E eu fiz. Não tive prazer algum. Entanto não quis roubar-lhe a ilusão de estar amando mamãe. Além do mais, sabia que sua vida corria pra ribanceira perpétua da morte. Era coisa de dias, talvez semanas. Quando papai murchava dentro de mim, já principiava a roncar. Dormiu duro feito pedra. No outro dia, acordei com a gritaria do lado de fora. Lá estava o homem, pendurado na árvore do quintal, enforcado com o fio das luzes de natal.
À tarde, vieram os tios. Pediram-me o lençol que fora de mamãe, pra carregar o cadáver e com ele ser aterrado. Disseram que faria bem ao defunto. O lençol, guardava-o dobrado inúmeras vezes no fundo do armário, esperançosa de que assim o aroma de mamãe não escapasse pelos ares, desejoso que devia de estar pra se libertar deste mundo cruento, conquistando horizontes. O lençol, cheirava-o de leve pra não gastar o cheiro, toda vez que Dita, com olhos de adeus, ia à cidade comprar ervas pro cachimbo.
Caminhamos léguas. Eu, Dita, tios, primos. Escorria-me pelo rosto uma lágrima, até o queixo. Dita, com o dedo, apanhou-a. Fez-me lamber.
- Não sirva ao diabo champanha em taça de cristal. Não dê de beber a essa terra maldita. Ela quer sugar sua seiva, consumir sua vida.
Carcarás, reis negros ultrajando o azul celeste, acompanhavam o séquito, por demais ouriçados com o cheiro de papai já podre. Ao lado de mamãe, a cova - só ansiedades - aguardava, que nem assunzinho miúdo escancarando o bico pra mãe lhe prover nutrimento. Enquanto os tios aterravam o corpo, eu observava. Ajoelhada, cruz nas mãos, finquei-a com ódio na terra. A parentada foi partindo. A ladainha se dissolvendo, cada vez mais distante. Restamos eu e Dita, apenas. Uni as mãos franzinas pra orar por papai. Dita repreendeu-me, austera. Separando minhas mãos, disse:
- Ele não acudirá. A gente fez toda essa miséria, a gente que sobreviva com ela.
E assim sucedeu. Ele não acudiu.

14.2.06

Márcio Garcia


MÁRCIO GARCIA, quadrinista e ilustrador, participou de diversos cursos nas Oficinas Culturais do Estado de São Paulo, ministrados por artistas de renome como Paulo Withaker, Luis Gê, Jal e Gual, Sônia Luyten, Joe Prado, entre outros. Adquiriu conhecimento em diversas áreas desde desenho e pintura até gravura e fotografia.
Atualmente, integra o Grupo Subsolo de artistas independentes e o Núcleo de Quadrinhos, com trabalhos publicados no fanzine Subterrâneo.


Contato: mgspadaro@ig.com.br


Links que eu sugiro:
Wilson André Filho - Sideralman

Voltar para a Home Page

13.2.06

Jaderson Luis Bellan


JADERSON é bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo - USP. Seu conto Joaninha fazedora de jarro foi escolhido pelo site literário Releituras e hoje integra o rol dos novos escritores.
Além do Contorno, em parceria com Márcio Garcia, Jaderson mantém outro blog, onde publica seus textos: palavrorios.blogspot.com.
Jaderson é também aficcionado por música, tendo estudado clarinete e piano. O violão, companheiro inseparável, aprendeu a tocar, ou talvez, arranhar, sozinho.



Contato: jadersonbellan@gmail.com


Links que eu sugiro:
Releituras - os melhores textos dos melhores escritores
Osman Lins
Cracatoa simplesmente sumiu!
Portal Literal
Bestiário
Givago
Pensar enlouquece. Pense nisso.

Voltar para a Home Page