20.2.06

Dolce Vita, nono andar, sala 4


Sete horas. Já estava escuro. Dia quente, abafado. O prédio preto de tão sujo. Pura fuligem, cuspida todos os dias pelos escapamentos de milhares de veículos raivosos que roncavam pela avenida. Edifício Dolce Vita. Treme-treme decadente freqüentado por putas e travestis da região. Saulo de pé, na porta. Aguardava o homem de vozeirão, com quem marcara encontro por telefone. Saulo, que era de Câncer, quarenta e tantos. Grisalho. E que também era crente. Bastante crente. Desses que fazem da Bíblia a bússola da vida. Saulo, casado, classe-média, pai de um moço. Quando ensejava a desistência, um táxi parou. Desceu um elemento abrutalhado, enorme, vestindo jeans e jaqueta de couro.
- Saulo? É o senhor?
- Isso. Cidão?
O brutamonte respondeu com um sim de cabeça e, pigarreando, perguntou com a voz grave, rouca, quase incompreensível:
- O apartamento? Do senhor?
- Não. Aluguei. Só pra ocasião. Vamos entrar.
A saleta de entrada ostentava um chão de ladrilhos vermelhos trincados. Lâmpada fraca, dependurada por fios desencapados. O porteiro de camisa desbotada azul fedia ardido a suor seco. Braços cruzados sobre a mesa, cabeça encovada no meio. Cochilava um sono mal dormido, sono de pernilongos rondando, ávidos pelo banquete. Às vezes despertava, abanava o braço na vã tentativa de expulsar o zum-zum-zum, ouvia um pouco do mal sintonizado jogo de uma dessas estações AM e dormia de novo.
Saulo e Cidão. Caminharam até o corredor do elevador. Esperavam. Saulo, Saulo... Logo ele, que era bom. Cidão encarava-o de soslaio. Saulo, de olhos titubeantes, namorava a rua. E agora? Desisto? Mas como? Esse homem já veio até aqui! Se eu sair ele avança em mim. Se corro ele me alcança. O estrondo do chegar do elevador, verdadeira jaula metálica enferrujada, interrompeu seu pensar. De dentro, saiu um travesti de peruca loira, barba por fazer. Fumava. Sorriso da decadência orgulhoso na cara. Batom vermelho, gritante. Dentes tortos. Os da frente separados por um buraco escuro, por onde roçava a língua. Levantou a blusa, botou a mão nas tetas postiças e assimétricas, empinando-as, e perguntou para Saulo, insinuando-se:
- E aí? Vai?
Saulo desviou. Entrou no elevador, seguido por Cidão. A porta era das antigas, trança de ferro fechada manualmente. Cidão enfiou a mão pesada por entre a grade e, violento, fechou-a. Para Saulo, era bom o sentir-se ascendendo. Aproximava-o dos céus. E a ascensão lenta os levaria até o nono andar. Olhavam pro chão. Cabisbaixos. Segundo andar. Terceiro. Só se ouvia o tec-tec de velharia da gaiola subindo. A mudez de ambos beirava o insuportável. Quinto. Cidão, preocupado em garantir seu bem-estar e completamente alheio àquela presença desconhecida, incômoda, perguntou sem interesse:
- Por que não só você? Sozinho?
Saulo tirou uma bíblia surrada do bolso do paletó. Segurou-a com força, cheio de fé nas letras gastas, apagadas. Respondeu comovido, com voz trêmula de quase choro:
- Não posso! As Escrituras! Não entende? O Livro condena! Preciso que faça isso por mim!
Sétimo. Oitavo. Um tranco e a jaula de ferro parou. Nono. Cauteloso, mãos de imensa leveza, Saulo forçou a grade. Ritualístico. Não queria destronar o silêncio que, tirano, abissal, imperava no estreito corredor repleto de penumbras. Caminharam. Saulo à frente, Cidão logo atrás. O eco dos pesados passos de Cidão, mentalmente repreendidos por Saulo. O cheiro de mofo. A claridade dúbia, sinuosa. No final, a sala 4. Tão disponível, tão só de Saulo. Tão toda perfeita para um plano secreto. De repente, a mão bruta de Cidão agarrou Saulo pelo braço, que olhou pra trás interrogativo. Cidão esclareceu, perguntando:
- Tem certeza?
A pergunta. Como era difícil transpô-la. Saulo, que já empunhava a chave da porta. A porta, que seria facilmente aberta. Mas a pergunta. A infame pergunta, para a qual Saulo não possuía chave alguma. A voz animalesca de Cidão transmudara-se na voz suave da esposa. Os olhos. Pareciam os olhos ternos, amantes dela. Olhos de apenas brilho, quando ele chegava em casa, respirava fundo o cheiro do feijão fresco sobre a mesa e sorria. Era ela, sua esposa perguntando se tinha certeza. E Saulo não tinha. Desisto? Vou até o fim? E respondeu, à meia voz:
- Sim. Vamos.
E foram. Caminharam. Sala 4. A chave, enfiada no orifício com vagar, agora girava, destrancava a porta. Calmamente. Mão na maçaneta, porta abrindo. Atônito, Saulo vislumbrava o recôndito secreto de sua obsessão. Carpete fino, escuro. Pouquíssimos móveis. Apenas uma cama e um criado-mudo. Janelas enormes. O incessante pisca-pisca dos luminosos de fora tingia o ambiente. Ora verde, ora lilás, ora vermelho. Entraram. Quando Cidão acendeu a luz, Saulo censurou-o:
- Não! No escuro! Só à luz dos luminosos.
Mergulhado em verde, Saulo tirou a carteira do bolso. Colocou-a sobre o criado. Deitou-se de bruços. Lilás. Pegou a Bíblia e apertou-a forte ao peito.
- Quando terminar, abra minha carteira. Está lá a quantia acertada.
- Certo.
Cidão aproximou-se. Na cabeça, Saulo sentiu a pressão dura, rígida.
- Pronto?
Luz vermelha. Tiro! Seco, varando furioso e quente seu pensamento. O som engolido pelo faminto turbilhão de buzinas e motor de avião. Cidão foi até a janela. Olhou pra baixo e cobiçou uma puta, que se oferecia com as coxas de fora. Pegou o dinheiro. Partiu. Só ficou Saulo. Saulo, que era crente. Que era bom. Feliz. Em casa, a esposa o esperava. O feijão esfriando na mesa.

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